Opinião do leitor : Detalhe menor
Opinião do leitor: Detalhe menor
Por Pedro Brito
Minibiografia:
Pedro Brito faz seu doutorado na UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), onde estuda as relações entre ficção, literatura e fotografia.
Na manhã do dia 13 de agosto de 1949, “a menina gritava enquanto fugia correndo. Ela então caiu na areia antes mesmo que fosse ouvido o estalo de um tiro que se alojou no lado direito de sua cabeça. O silêncio ressoou no espaço. E reinou de novo a calma” (p. 49). A descrição quase fria de um assassinato, que parte de um grito e chega a um silêncio, como num arco.
Detalhe menor, da autora palestina Adania Shibli, é o romance, ao mesmo tempo sombrio e sóbrio, desse assassinato. Se uma morte é sempre definitiva, cabe a nós, os vivos, honrar a vida daqueles que se foram, fazer com que algo dessa vida – mas também de sua interrupção abrupta e violenta – seja transmitido, permanecendo para além da morte. É essa a dura e delicada tarefa de Shibli.
Duas narrativas se sucedem, mas também se cruzam, em Detalhe menor. Na primeira delas, temos um narrador anônimo, na terceira pessoa (que fala “ele”). Esse narrador nos conta o que aconteceu nos dias que antecederam o assassinato cruel da menina e na manhã em que “um grito agudo cruzou o ar”. Na segunda narrativa, temos uma narradora em primeira pessoa (que fala “eu”). Essa narradora, uma mulher que não tem nome, nos conta o que aconteceu depois de ela ter ficado sabendo desse assassinato, décadas mais tarde, por meio de uma reportagem fria de jornal.
Uma coincidência banal motiva toda a narrativa, aliás, um “detalhe menor”: a jovem foi assassinada exatos 25 anos antes de essa mulher nascer.
O ano de nascimento dessa mulher é, assim, 1974, coincidindo com o ano de nascimento da própria autora, Adania Shibli. Seria a narradora sem nome um reflexo da própria autora? Seria o romance, então, um romance autobiográfico? Esse é um dos enigmas do livro, e, só na última página, a leitora e o leitor encontrarão a resposta.
O livro traz o título de “detalhe menor”. Pois bem: esse título não é casual, já que é esse detalhe menor – uma coincidência de datas – que instiga a mulher a ir buscar mais informações sobre a morte de uma jovem em 1949, dando origem à narrativa que lemos.
E são vários os detalhes menores que vão progressivamente se encadeando no livro, como em um daqueles painéis que vemos nos filmes policiais, onde os detetives vão pregando pedaços de jornal, fotos, relatos, mapas. Nós, leitores, somos convidados a participar desse trabalho e a ir juntando os pontos, um por um, mesmo que, por vezes, eles pareçam tão distantes ou misteriosos. O mistério faz parte da investigação, motiva a investigação.
Eis aqui alguns desses detalhes menores – que parecem, em um primeiro relance, não ter qualquer relevância. Na primeira parte: um soldado mordido por um inseto, rondas que não levam a lugar algum, soldados que esperam um conflito que nunca chega. Na segunda parte: uma explosão que espalha poeira sobre a mesa de trabalho, uma viagem por cidades abandonadas, dois pacotes de chicletes, um bombardeio ao longe, a miragem de uma garota na areia.
Estando atento, como bom investigador, o leitor entenderá que é o modo como esses pequenos acontecimentos e essas pequenas coisas vão se aproximando e se distanciando, montando um complexo quebra-cabeças, que guarda toda a verdade do romance. É o que nos lembra a própria narradora da segunda parte:
“É evidente que, à primeira vista, cabe rir dessa atitude, que possa levar alguém, logo depois de um edifício ser detonado perto do lugar de trabalho desse alguém, a se incomodar só com a poeira levantada, e não com a morte dos três jovens que se refugiavam nele, por exemplo. Mas há quem veja nos detalhes menores, como a poeira na mesa do escritório ou o cocô na tela do quadro, o único caminho para se chegar à verdade, quando não a única prova conclusiva da sua existência” (p. 59).
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Após a eclosão da nova fase do conflito entre o Estado de Israel e o grupo terrorista Hamas, que acompanhamos estarrecidos e consternados, entramos em um momento sem precedentes de crise humanitária na Faixa de Gaza, com bombardeios diários pelo lado israelense e um embargo que impede a chegada dos bens mais básicos de sobrevivência (água, gás, alimentos) à população palestina.
Após o indefensável ataque, no dia 7 de outubro, do Hamas a cidades de Israel, que levaram à morte e ao sequestro de centenas de civis do lado israelense, a Feira do Livro de Frankfurt cancelou um evento de homenagem a Adania Shibli, que ganharia na ocasião um prêmio por Detalhe menor. Em justificativa pública, a associação que organizava a premiação (Litprom) disse que a opção por não realizar a cerimônia é "devida à guerra começada pelo Hamas, sob a qual milhões de pessoas estão sofrendo em Israel e na Palestina".
Mas cabe a pergunta: por que censurar uma ficcionista e sua obra por um conflito que envolve um Estado poderoso e um grupo terrorista armado? Não é ferir qualquer bom senso mínimo confundir um livro de ficção e um conflito armado, como se a escritora estivesse, com seu livro, disseminando antissemitismo contra os israelenses e sendo quase uma porta-voz do Hamas?
Essa postura, no mínimo abusiva, para não dizer cínica e cretina, recebeu a devida resposta. Em uma carta de protesto, assinada pela Editora Todavia, pela tradutora brasileira e por três prêmios Nobel de Literatura – Annie Ernaux, Olga Tokarczuk e Abdulrazak Gurnah –, um grupo de cerca de 1000 escritores e profissionais do livro escreveram que a Feira de Frankfurt tem “a responsabilidade, como uma feira internacional de grande porte, de criar espaços para que escritores palestinos dividam suas ideias, sentimentos e reflexões sobre a literatura nesses tempos cruéis e terríveis, em vez de calá-los”.
Deixei este pequeno adendo de protesto para o final, porque creio que a obra de Shibli é, em si, excelente, e não precisa de justificativas externas para ser lida. Mas a autora está envolvida em uma polêmica tão absurda, que a leitura de Detalhe menor se torna, hoje em dia, uma questão de resistência política e cultural.

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